terça-feira, 17 de novembro de 2009

PERDAS E DANOS


Como é difícil crescer! Um dia a gente acorda e percebe que não existe mais aquele riacho caudaloso ao lado da nossa janela. Percebe que não há mais o cheiro forte de café que a avó ou a mãe da gente preparava sistematicamente todas as manhãs.
Me olho no espelho e ao invés de um garoto tímido e cheio de espinhas, eu vejo um cara grisalho... as marcas do tempo surgidas como se por mero acaso, sem pedir licença.
Esse intervalo eu não percebi!
Parece que foi ontem que deixei minha mãe ali deitada, os olhos e o sorriso congelados, inertes. Me permitindo apenas um abraço e um sussurro de despedida.
Parece que foi ontem que vi os olhos de minha alma de mala na mão, dizendo um adeus intermitente que ecoou por meses e meses na minha cabeça!
Não sei pra onde foram os outros olhos: castanhos, verdes, azuis e negros... desfilaram repentinos por entre nuvens de fumaça perdendo o brilho lentamente até se apagarem nas entranhas da memória.
Tantas perdas... tantos ganhos... tão disperso se tornou meu pensamento nestes 43 - quase 44 - anos de noites intermináveis e dias sem silêncio. Meus cabelos ficaram cinza, meu rosto marcou-se de tempo, minhas mãos soltaram outras e tantas mãos e hoje seguram o vazio!
Por tudo isso, pensei que soubesse lidar com as perdas. Ledo engano! Cada perda é um capítulo novo, um novo e dolorido processo de desapego... um sofrimento enorme mas extremamente necessário ao crescimento daquilo que entendemos como "nossa história". Cada uma mexe com estruturas que supúnhamos solidas... amadurecidas, resolvidas! E por isso nos tira o chão por instantes e o abismo que se abre parece não ter fim. Mas o tempo... o mesmo tempo que solidifica suas memórias se encarrega de apagar estes vestígios... de escrever suas letras retas em suas linhas tortas mais um pedaço do nosso destino.
Como dizia José Régio em seu eterno e louco Cântico Negro:
"Não sei por onde vou, não sei pra onde vou... só sei que não vou por ai!""

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